Em 23 de maio de 2018 completam-se 130 anos da abolição da escravidão no Brasil, mas ainda podemos observar reflexos por todos os lados desse passado histórico. Na violência policial com o negro, na base da pirâmide de trabalho; nas escolas, nas universidades. A abolição chegou e não trouxe com ela a possibilidade de ascensão social e profissional. Não apagou o racismo que existe nas instituições e dentro das pessoas.

No último dia 7 de novembro, o Centro de Artes da UFF realizou a palestra “Corpos Pretxs”, como uma das atividades do 8º Festival Interculturalidades. A palestra teve como objetivo discutir questões da negritude e racialização dos corpos por diferentes perspectivas, pela voz de pessoas que lutam para afirmar sua identidade e solidificar a resistência. Estiveram como palestrantes: Blacyva, Thainara Cardoso e Phelipe Rocha, e como mediadora Janaína Damasceno.

Para Thainara Cardoso, negra, psicóloga formada pela UFF, moradora de São Gonçalo e coordenadora do Projeto África em Nós, o racismo também está nas sutilezas e deve ser combatido cotidianamente. Ela compreende que o corpo preto foi desumanizado ao longo de nossa construção histórica e ainda é nos dias de hoje. O Mapa da Violência demonstra que  o principal alvo da polícia são os jovens negros. Em 2010, a cada 100 mil habitantes mortos em Niterói, 149,5 eram negros e 40,6 brancos e em São Gonçalo 103,7 eram negros e 62 brancos. E narrativas são contadas de formas diferentes quando se trata de um negro ou um branco.

O Projeto África em Nós realiza atividades em escolas públicas com o objetivo de discutir o racismo e levar mais conhecimento sobre as tradições e cultura negra. Entre as propostas realizadas, o projeto levou crianças para assistirem a peça “O Pequeno Príncipe Preto”. É extremamente necessário que as crianças possam se ver. Se reconhecer na vida e na arte. Entender sua história e saber que elas têm um lugar de fala.

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O Brasil tem em sua formação  maior parte da população negra e ainda  predominam nas escolas uma linha de ensino orientada pela eugenia branca e eurocêntrica. Entretanto, segundo a lei 10.639 é obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, bem  como o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.  

Para Phellipe Rocha, estudante de psicologia da UFF e redutor de danos (vai às ruas  cuidar de pessoas que fazem uso de álcool e outras drogas) a redução de danos é uma forma da população de rua, em sua maioria negra, sobreviver. E o SUS (Sistema Único de Saúde) apesar de ter problemas é uma referência em vários tratamentos e única opção para tantos.

“Defender o SUS é defender a saúde da população negra.” – Phelipe Rocha

Desde a década de 80, o racismo era discutido, mas por brancos. Palestras como essa, são importantes pois o racismo acontece todos os dias, de forma direta ou velada. E é preciso falar sobre o assunto, principalmente com propriedade e vivência. Um relato da plateia foi o encontro de duas escolas em um museu no Rio de Janeiro, ambas da mesma série, a escola particular, com todos os alunos brancos e a pública, com alunos negros. Os alunos da escola pública chegaram primeiro à sala de exibição de vídeo do museu e foram orientados pelo professor a saírem de seus lugares e darem lugar aos brancos quando estes entraram. É notável como desde cedo brancos e negros são educados para ocupar um determinado lugar na sociedade. Um lugar que não é natural.

Thainara Cardoso, coordenadora do projeto África em Nós

Nessa linha de pensamento, podemos  concluir que esse lugar não natural ocupado por brancos e negros deve ser constantemente  combatido e desde cedo as crianças devem ser estimuladas a pensar e conhecer a história da cultura negra. A representatividade é uma maneira de ampliar esse campo de visão e entendimento, como exemplifica Thainara: “Em uma atividade recebi um bilhete de uma menina elogiando meu cabelo. E percebi que quando aquela menina elogiou o meu cabelo, ela também estava se vendo e falando sobre o cabelo dela.”

 

Para enfrentar o racismo é preciso se posicionar. É preciso reconhecer a contribuição da multiplicidade dos corpos negrxs na construção dos bens culturais, econômicos, sociais e políticos que envolvem a construção de identidade do que é ser Brasil. Denunciar o racismo, a intolerância religiosa, o feminicídio e o genocídio da população negra são obrigações. Para saber um pouco mais sobre racismo assista o vídeo!

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