Erica Malunguinho

Autorretrato: Conversas com pessoas que transformam.

Conversa com Erica Malunguinho, idealizadora e gestora do Aparelha Luzia, um quilombo urbano que reúne arte, política, educação, saúde e negritude. O nome homenageia os aparelhos dos anos 60 e 70 que abrigavam os que lutavam contra a ditadura, combinado com Luzia, nome da primeira brasileira, de traços negros e cujo fóssil data de 12 mil anos atrás. Veja como foi o papo!

Sou Erica Malunguinho, sou pernambucana, sou ativista das artes, da cultura, da educação e da política, trabalhei muitos anos com educação formal, também com projetos educativos e artes também, porque nunca entendi a separação dessas duas coisas e nesse processo todo eu fui vendo a limitação das instituições em tentar lidar com coragem, com verdade, em relação às violências estruturais. Eu pensava arte, cultura, educação e política, mas sempre com gênero, raça e sexualidade, atravessando esses caminhos. Então foi aí que eu vi a limitação das instituições e pensei e articulei e mediei a possibilidade de abertura de um espaço que pudesse tencionar esses discursos no ponto onde é necessário, então assim, indo para o lugar mais radical, no sentido de raiz, tencionando pelas mulheres e pelas mulheres pretas essa construção de um espaço político, que é esse quilombo urbano chamado Aparelha Luzia.

A cultura vai tentando a todo momento colocar a gente dentro dos seus cabrestos, né? Então acho que essa pessoa que sou diz respeito a resistência aos cabrestos da normatividade, mas também diz respeito a tudo aquilo que aprendi, fui vendo no mundo como possibilidade de existência, que é observar em Pernambuco as culturas pretas de origem africana e indígena muito próximas, atreladas, e isso sendo produzido, produzindo cultura, música, arte, visualidades e etc., e performances, no cotidiano, diz respeito a ser filha da mulher que sou, que é uma mulher que tem toda uma história que é muito parecida com a de muitas mulheres negras, que é de ter o abandono do pai, ela criou esses filhos sozinha, e enfim, com muita garra e trabalhando, e não só os filhos, mas também toda uma rede de familiares que levou junto com ela, porque foi a escolhida pra estudar; diz respeito aos meus avós, que fizeram com que minha mãe fosse afilhada de um dos líderes das ligas campesinas, então é uma história de luta que sempre aconteceu, por ser uma família preta, obviamente é isso, porque nascer gente preta em um país racista te obriga a negociar seu pertencimento constantemente, e o lugar que eles encontraram foi esse lugar de resistência.

Eu carrego a história dessas mulheres, da minha avó, de minha mãe e de meu avô também, que foi meu pai, uma história de buscar o estar bem mesmo com todos os processos de opressão e invisibilidade, então assim, era uma batalha constante, mas estavam todos bem na luta, forte na luta. Isso aqui não tinha, aquilo não acontecia, mas estavam todos fortes na luta. Então acho que essa experiência, esse cultivo que essas pessoas fizeram comigo acho que diz respeito a essa pessoa que sou hoje. Diz respeito também a meus ancestrais anteriores, diz respeito aos quilombos anteriores, diz respeito aos cultos da jurema sagrada, diz respeito aos candomblés, diz respeito aos maracatus, diz respeito a todas essas existências que acabaram chegando até a gente e faz a gente estar nesse tempo agora desse jeito, forte, presente. Não que a força seja uma qualidade, né, porque resistir é uma coisa muito doída, não é legal romantizar a resistência, a gente resiste porque não tem opção, a gente precisa ficar viva, precisa ficar bem e nós estamos lutando não é para ficar resistindo, lutamos para existir, para ficar suave, na tranquilidade, para ter bem-estar, para conseguir esse lugar de existência, de acomodação dos nossos corpos ao mundo. Então enquanto isso não acontece, a gente treta, para lutar pela existência, pelo existir.

Eu não me disse, não fui eu que fui dizendo “eu sou preta” ou “eu sou uma mulher trans” ou “eu sou nordestina na cidade de São Paulo”, não fui eu que fui me disse isso. Quem me disse foi a normatividade e todas essas violências estruturais, que foram me apontando o dedo e me obrigando a resistir e a negociar minha vida dentro dessa normatividade. Uma vez que isso está posto, que isso acontece, que isso aconteceu, eu assimilei obviamente essas identidades de modo a fazer com que isso se torne algo propositivo, propulsor, e etc., mas eu sei que essas identidades dizem respeito as nossas humanidades. Eu não estou fazendo nada demais, é um ser humano existindo. Mas para existir precisa resistir. Minha humanidade não é negociável, como Sueli Carneiro fala, nossa mestra, uma de nossas mestras. Nossa humanidade é inegociável. Então assim, uma vez que minha humanidade é inegociável, eu vou resistir, vou tretar, até que essas humanidades, que não dizem respeito a mim, mas a uma coletividade, que somos todos nós, estivermos com tranquilidade, com paz e sossego. Coisas básicas são coisas básicas, não falo de comida na mesa, obviamente, acesso a um sistema de saúde, educação… nem deveria ser questionado. Eu falo de outras coisas ainda, não ter que lidar com transfobia, com machismo, com racismo, com isso não tem sentido, não tem sentido. Para além dos direitos sociais básicos garantidos, é direito a circulação como qualquer pessoa que participa do mundo, como ser político que somos.

Aqui em São Paulo encontrei uma multiplicidade outra, uma outra forma de entender o múltiplo, uma vez que aqui tem gente de muitos lugares, uma comunidade nordestina muito grande, tem uma diáspora muito grande acontecendo em São Paulo, que é a diáspora nordestina, que é a diáspora do Norte, que é a diáspora, enfim, de outras regiões do Brasil, e a diáspora de fora do Brasil. São muitas diásporas em consonância, então isso é um encontro, assim, porque esse encontro que parece uma coisa muito boa, e é muito boa, muito bonito de se ver e ao mesmo tempo você tem o que faz essa cidade se tornar a grande cidade do país, que é exatamente a exploração desses corpos que estão em diáspora, por necessidades, a exploração desses corpos e consequentemente o apagamento. E aí eu me vi inclusa dentro de mais uma cisão, de mais um conflito, de mais um processo de resistência. Então falei: “danou-se! ”, estava faltando alguma resistência, tem mais uma, agora ‘sim bora’. Me deparei com ser nordestina, que era uma coisa que eu não pensava bem sobre, porque simplesmente não precisava pensar sobre isso, sobre ser nordestina. Quando estava em Pernambuco, existiam outras coisas que eu precisava negociar, que dizia respeito a raça, a identidade de gênero, sexualidade, essas coisas. Agora tinha mais essa, e aí você vê que essa cidade, ao mesmo tempo que ela recebe tudo isso, ela vai provocando essa cisão, você vê como a arquitetura da destruição está muito bem organizada aqui. Arquitetura do ponto de vista dos prédios, das ruas e dessa dita organização dos Centros e desses bairros de classe média, mas também arquitetura das pessoas, da corporeidade das pessoas, como elas agregam, mas em um lugar determinado. Ela agrega a cultura nordestina, mas no lugar da servidão; agregam a população trans, mas é para o mercado de trabalho da prostituição; agrega a cultura preta, mas é para fazer os trabalhos de limpeza e etc. ou quando não, fazer o entretenimento e etc. Você percebe como essa cidade é rica, como ela se constrói em um processo de exploração das existências desses corpos.

Tem uma coisa de São Paulo que é muito importante falar. Estava falando dessas coisas todas da lógica de opressão e etc., e aí você vê como essa cidade articula a geografia dela, expulsando para as bordas esses corpos, esses grupos de pessoas e, quando São Paulo decide se tornar uma grande cidade, para mim isso é um marco, assim, para entender, são muitas histórias, muitos marcos do processo de exploração das culturas indígenas, de extermínio, de apagamento, de expulsão, porque todas as terras eram deles, nossas. Um outro processo que se dá nos pós abolição, quando São Paulo decide se tornar uma grande cidade, logo depois da falsa abolição, e é maluco (maluco não, é racismo), começam a distribuir panfletos, convites, entregas de passagens e doação de terrenos para europeus, quando se tinha uma população aqui, recém liberta, e etc., e essa população não foi absorvida para nada. Então para mim é muito nítido como isso permanece e esse cosmopolitismo que diz respeito a essas populações que vêm da Europa diz respeito também a esse processo de apagamento das identidades pretas e indígenas. Pretos da terra e pretos de África. Isso é importante de ser demarcado.

“Esse cosmopolitismo paulistano é um cosmopolitismo construído a partir da exclusão.”

 

Porque ser branco, e acho que essa é uma pauta muito importante para dizer porque existe a Aparelha Luzia, isso diz respeito a construção, diz respeito ao que é ser branco, o que é a branquitude. Não estou apontando a cara de uma pessoa branca, estou falando de um sistema de opressão organizado, articulado, absolutamente engendrado, que faz com que haja naturalização da invisibilidade e da morte de certos corpos. É disso que eu estou falando. E eu falo assim, a pessoa branca tem benefícios em relação a essa construção, porque ela simplesmente não precisa negociar o pertencimento dela. Não precisa se questionar sobre isso constantemente. Então isso já diz respeito a um mega de um privilégio e significa sim que essa pessoa se beneficiou do racismo. Se beneficiou sim! E assim, e a dor que a gente carrega precisa ser compartilhada, precisa ser compartilhada essa redistribuição da violência. Assim como eu tenho uma origem que foi escravizada, as pessoas brancas precisam entender que elas têm uma origem de ancestrais opressores, violentos, e que naturalizam, não só desse lado, mas que também naturalizaram a opressão a outros povos. Mesmo que não agissem diretamente, se beneficiaram, porque não se importaram, porque estava tudo bem. E aí falaram: “ah, mas tem a ver com o tempo”. Ok, tem a ver com o tempo, mas assim, o que você vai fazer por isso agora? Branquitude, o que vocês vão fazer agora? A pauta agora, qual é? Uma vez que você tem consciência e entende que isso tudo faz parte de um processo histórico no qual havia uma alienação, uma ignorância em relação a isso, mas e agora, Brasil? O que você faz? Você vai ceder espaço? Você vai ceder protagonismo? Você vai fortalecer politicamente e economicamente projetos que estejam ligados e coerentes a destruição dessas violências estruturais? Porque isso agora diz respeito a, inclusive, não ter você como um agente desse processo, o que quer dizer que somos nós que temos que fazer isso. Quer dizer que o dinheiro precisa vir para nossas mãos, os lugares de tomada de decisão têm que vir para nossas mãos. Não adianta continuar só fazendo projeto pra assistenciar a comunidade. Comunidade somos nós. Quer de novo dizer que a gente não sabe o que fazer? Que a gente não sabe o que pensar? Que a gente não sabe como projetar um amanhã e projetar as nossas melhoras? E isso não diz respeito a nós, povo preto, mulheres, e tanto as trans como as cis e sobretudo mulheres negras, mas as brancas também que passam por violências estruturais. Não estou falando que só vai ficar bom pra gente. É porque, naturalmente, uma vez que a gente destrói essa pirâmide, essas estruturas opressoras, vai ficar bom para todo mundo. Só que precisa largar o osso, entendeu? Precisa sair do lugar, precisa com que nós, nossos olhares adentrem esses lugares de decisão para desconstrução. Aparelha Luzia é isso, Aparelha Luzia é a construção, é a materialização dessas narrativas em constante atravessamento. A Aparelha Luzia é isso, é a materialização tanto desse entendimento anterior e ancestral quanto a assimilação de tudo isso para propulsionar e pensar um amanhã. Então assim, sendo bem didática: eu não era negra, me disseram “negra” e, uma vez que me disseram e eu entendi o que isso significa, assimilei e incorporei isso e eu estou em constante processo para dizer o que pode vir a ser uma negritude ou uma sociedade a partir disso.

O Aparelha Luzia é um espaço de arte, de cultura, educação e políticas pretas, é um espaço que constrói uma narrativa exatamente por onde todo mundo achava que ia terminar, então ela começa a narrativa a partir das mulheres, a partir das mulheres cisgêneras e trans pretas, então essa narrativa é o ponto de tensionamento e tudo o que acontece aqui diz respeito à construção de um pensamento, a construção de sociabilidade, a construção de uma narrativa partindo desse pressuposto. Materialmente, o que acontece: teatro, dança, música, lançamentos de livros, debates de diversas ordens, de diversos, milhares temas, porque temos muita coisa para falar. Temos núcleos de estudos, de saúde, o Quilombo da Saúde, de economia, de mídia, de espiritualidade, de afetividade, de educação.
O que significa um projeto de alternância de poder? Significa entender como os mecanismos institucionais estão organizados e como é que a gente elabora esses mecanismos institucionais a partir desse tensionamento, que é feminino, que é preto e etc., que é onde está a cisão máxima das sociedades. Pensamos nisso para conseguir projetar uma institucionalidade também, não essa institucionalidade de fora. Diz respeito a como a gente consegue construir sociabilidade a partir do momento que a gente não precisa lidar, por exemplo, com o racismo. O que é isso, não ter que lidar com o racismo? É tentar entender um horizonte possível quando não tem essas barreiras, confabular tudo isso, um centro de inteligências e produções da negritude, todo o círculo produtivo da linguagem, da criação, da mediação, da circulação, do consumo, da troca, da crítica, etc. É o afrocentro epicentro.

Saúde para mim é existir com plenitude, saúde é poder transitar, poder caminhar, poder acessar. Quando a gente fala de disputa de poder, a gente quer poder, não é poder para destruir, é poder para caminhar, poder para transitar, poder para existir, poder para ser, então saúde é isso, diz respeito a nossa existência, ao nosso corpo integrado ao mundo, de forma que não seja dura, que não seja violenta, que não seja sofrida essa existência e essa permanência no mundo, é só estar bem, só estar bem. Isso eu não estou romantizando, não estou falando de estados de humor, não estou falando de angústias, estou falando de não ter que lidar com essa construção violenta de sociedade, que causou as dores, inseguranças, violências. Saúde é existir em plenitude, poder ser, saúde é pensar em um sistema no qual as pessoas possam estar bem, e isso significa ter que destruir essas violências estruturais, essas lógicas de poder de um corpo sobre outro, de um grupo sobre outro. Isso precisa de horizontalidade, mas enquanto isso não está posto, a gente tem que ir para cima.

Para conhecer mais do Aparelha Luzia, acesse: Aparelha Luzia